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Sabe aquela cena clássica? O despertador toca, você se espreguiça e, ao colocar o primeiro pé no chão para ir ao banheiro, sente uma fisgada tão aguda no calcanhar que parece ter pisado em um prego. Você manca pelos primeiros cinco ou seis passos e, de repente, a dor começa a ceder. Parece um mistério: por que dói tanto logo cedo e melhora conforme a gente se movimenta? Como alguém que passa o dia analisando a biomecânica de pés e tornozelos, garanto que não há nada de sobrenatural nisso. Na grande maioria das vezes, o culpado tem nome e sobrenome: fasceíte plantar. Para entender o que acontece, imagine que a planta do seu pé tem uma espécie de “corda” elástica e resistente que liga o calcanhar aos dedos. Essa é a fáscia plantar. Ela é o principal amortecedor do seu arco. Durante a noite, enquanto você dorme, seu pé relaxa e fica em uma posição levemente “apontada” para baixo. Nesse período, a fáscia se encurta e tenta cicatrizar as microlesões que você causou nela ao longo do dia anterior — seja por ter corrido dez quilômetros, usado um sapato sem amortecimento ou passado horas em pé no trabalho. O problema é que esse processo de “cura” noturna é frágil. Quando você levanta e joga todo o peso do corpo sobre o pé, essa fáscia encurtada é esticada de forma bruta e repentina. É como se você pegasse um elástico gelado e o puxasse com força máxima: ele não rompe, mas sofre microfissuras que geram aquela dor lancinante. Além do óbvio: não é só inflamação Muita gente ainda chama isso de “inflamação”, mas a medicina moderna prefere o termo fasciose. Isso porque, em casos crônicos, o que vemos não é um processo inflamatório clássico, mas sim uma degeneração do tecido.
O colágeno da fáscia começa a perder a qualidade. É por isso que repouso absoluto raramente resolve o problema sozinho. O corpo precisa aprender a carregar o peso da forma correta novamente. Recebi um paciente recentemente, o Marcos, um corredor amador que estava prestes a desistir da sua primeira meia maratona. Ele me disse: “Doutor, eu corro 15 km e aguento a dor, mas o trajeto da cama até a cozinha de manhã é um suplício”. O erro do Marcos era comum: ele focava apenas no calcanhar, ignorando que o problema dele nascia na panturrilha. Músculos da batata da perna excessivamente tensos “puxam” o tendão de Aquiles que, por sua vez, aumenta a tensão na fáscia. É uma reação em cadeia. Pequenos ajustes que mudam o jogo Se você está passando por isso, o primeiro passo não é necessariamente uma cirurgia ou infiltrações complexas. A abordagem conservadora costuma ter um sucesso enorme quando bem feita. O truque da garrafa de água: Antes de dormir ou logo após chegar em casa, pegue uma garrafa de água congelada e role a planta do pé sobre ela por 10 minutos. O gelo controla a dor e o movimento faz uma liberação miofascial mecânica. Alongue antes de levantar: Antes de colocar o pé no chão, use uma toalha para puxar a ponta do pé em sua direção, mantendo o joelho esticado. Isso avisa a fáscia que ela vai precisar esticar, evitando o choque térmico mecânico da primeira pisada. Olhe para os seus sapatos: Aquele tênis de academia que já rodou 800 km ou aquela sapatilha sem sola nenhuma podem ser os vilões silenciosos. O pé precisa de suporte, especialmente se você tem o pé muito plano (chato) ou muito cavo.